sábado, 19 de novembro de 2011

buraco negro

Sozinha, com a minha dor, invisível, anônima, calada pelos barulhos das ruas, das horas caindo pelas paredes, acusada disto, daquilo, tudo mentira, tudo sujo, opaco, nebuloso, confuso, estranho, a morte que chega fingindo que não, me prendendo com linhas de arame à ilusão da vida, para quê?, e o silêncio que persiste na essência de tanto barulho, e todas as coisas acreditadas em vão, para nada, e minha pele gasta por tantas lágrimas, minha pele que já era, meu corpo não visto que, agora, reconheço, já nem merece ser visto, e minha alma cadê ela, coitada, ela ouve os risos mas não consegue mais ver quem é que a pisa de tão curvada que está... sozinha, o coração ao vento... acendam a luz por favor! ACENDAM!

domingo, 23 de outubro de 2011

ela

copacabana continua linda. mar bravio, cor de sal intenso, combina comigo. sol me acolhendo na carência das horas docemente desesperadas. eu caminho por fora, corro dentro de mim... tudo é moreno no horizonte. ela continua linda.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sublimação

Eu sou a intérprete das canções perdidas
A capa dos romances amachucados
O trilho interrompido do trem desesperado
Sublimado em perfume de uma tragédia antiga.
Eu sou o ser que ama sem ser amado
O ser último e primeiro da Terra.
De mim nascem todos os papéis penetrados por poemas
Todas as serenatas e todas as guerras e todos os lemas
Todos os exageros e todos os segredos
Todos os medos e todos os nervos
Tudo o que chora, e que demora ou é de repente
Todos os erros e acertos são meus.
E amo meu amor ausente com o mesmo desapego de Deus.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

morenitude

Moreno mar que me chamas, com sussurros de sereias, à viagem descobridora,

Como esquecer a delícia desse horizonte distante de canela e caril?

* Senza Pieta, pintura de Aaron Nagel.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

hoje não

Devolva meus passos
meu andar sozinha
os momentos escassos
em que foi minha
e todas as luas
que perdi te olhando
devolva às ruas
despovoadas de nós
- mas quando?
Só te peço que hoje não.
Hoje não.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

oásis

chegar e se inebriar
extasiada de nada
- cadê?
estilhaçou-se em pólens
a magia concreta
que de tão secreta
hoje parece sonhada
- você

quinta-feira, 7 de abril de 2011

prazer!


Eu sou o pássaro que escuta
os perfumes da madrugada
a baiana que batuca
a cigana inflamada
os ciúmes os desejos
a bruxa e a fada
eu sou os beijos todos do mundo
e da lua e de saturno…
eu sou o segundo!
o tudo ou nada
o bemol mais triste do noturno
mais o sol que arde na estrada
eu sou o caminho distante e sozinho
sem chegada
sou índia loira negra
eu não entendo a regra
nem ela me entende a mim
eu sou de onde eu vim
sou exatamente o que sinto – e eu não minto
ô gente, eu não amo para ser amada!
eu amo porque me chamo amor!
eu faço do instinto o instante
abraço a dor e vou adiante
descarnada...
sou Débora Regina Simone
eu sou a fome
de ser eu e ser a outra e todos os outros
fome que vive morre de fome
alucinada…
que depois se levanta
e como se nada fosse ter morrido!
olha doce, abre os braços e canta!
e segue, alegre, contudo, com nada
à frente dos próprios passos
pacificada.

Eu sou o dia em que eu não mais direi “eu sou”.