segunda-feira, 31 de maio de 2010

amanhecendo

O violão intocado. A chuva forte, tropical, tocando todos os instrumentos de alcatrão e cimento. Adivinho a indecisão das ondas, agora um pouco mais distantes. Rio de Janeiro. Respiro a mesma cidade que me entra pela nova janela e me encanto além-delas. Baixinho me chega a voz de Amália, imensidão de lezíria ribatejana, eternidade de rocha algarvia, mistério beirão, cheiros de Lisboa… me traz emoções misturadas de além do oceano, memórias, idades… lugares e instantes irrepetíveis e, por isso, tão dolorosos quanto felizes. Estou aqui. Não sou de nenhum lugar, sou de todos os seres que amei e amo e amarei. Que meu amor possa tudo curar!

Que meu amor possa tudo curar.


Calou-se a chuva.
E o violão, intocado.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

outros passeios



Mogoşoaia*, 2006… a chegada cinematográfica numa noite pálida de quase-inverno...

a sensação-quase-visão de um mundo que, de luzes apagadas, se prometia estranhamente-quase-fantasmagoricamente grandioso...



o amanhecer gelado e espantado, lento, à janela, depois andante, sobre as folhas coloridas dos caminhos...

o lago
a solidão
a floresta

o silêncio crepitante... o ar de uma pureza tão fria, quase-brisa... o crer allegro de estar por entre fadas e gnomos.

Os obstáculos felizes do desconhecido – das paredes, das pessoas, das horas.

Os cheiros novos... os sons longínquos da misteriosa música cigana ou do comboio sôfrego que passava... as copas das árvores misturando o outono e o inverno, nas suas cores quentes cobertas de neve, entrecortadas, aqui e ali, pelos fios quase-frios do sol, que eu procurava com o rosto, na ilusão de me aquecer... passeios encantados...




... do vivacissimo encanto recorrente, no passado e no presente, em outras paisagens-voragens-do-tempo...

* Mogoşoaia fica perto de Bucareste, na Roménia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

outono

passeio outonado no calçadão de copacabana... mar belo, de um verde escuro temperado de um leve vermelho, ondas fazendo escândalos nos ares, morros azuis escuros no horizonte de nuvens e nuvens e nuvens, azuis escuras de todos os tons... o frio carioca de 23º soprando no fogo dos pensamentos...