quinta-feira, 12 de agosto de 2010

eu chego já



A memória mais antiga. O aconchego mais quente. A certeza da certeza da certeza. Os olhos fechados ao sabor da canção na voz pequenina de alma tão forte. As histórias de verdade que encantam. Todas as vontades, todos os mimos, toda a aceitação. Tanto cuidado. Tanto alento. Tantos beijos, que fazem tanto bem! Tanto querer-bem. Tantas horas... e vidas...

Os jogos de cartas. O fado. As pessoas antigas. As mornas. As tradições. Os segredos.

E tudo o que há-de vir. Amo-te tanto.

domingo, 18 de julho de 2010

a meio (amar em aquarela)



eu queria
chegar
mas quando eu começo
a caminhar
tropeço
na corrente fria
de um não estar
fico sem ar
medindo meu excesso
tremendo no regresso
de não saber voltar

terça-feira, 29 de junho de 2010

cigana

eu-cigana-que-sou
não tenho chão
só tenho céu.

não tenho coração
não - não o possuo não!

ele é maior do que eu.

é o horizonte que eu abraço
com a fé toda dos braços

e assim meu caminho se vai iluminando
surpreendentemente
para-além-da-dor...

e assim sou feliz
assim de repente

amando

a mando desse algo maior.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

sete luas

lua bela em copacabana.

caminho de luar no mar tranquilo, mar que nos últimos dias andava tão agitado sem razão.

o brilho é eterno, seja de lua cheia ou meia, ou mesmo, de repente, invisível - o brilho é eterno. seja refletido na imensidão das ondas ou na imensidão da profundidade - o brilho é eterno.

e me conduz com a certeza do certo e o espanto do milagre.

as mãos atadas sem fios, no caminho da eternidade. meu peito aberto - ao horizonte. meu olhar dentro do dela.

em copacabana, a lua - ainda mais bela.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

caminho das estufas

O caminho das estufas, terra e verde, o horizonte e o peito abertos, as cores serenas, pinceladas a pastel por dentro dos olhos que vão lá para trás, para trás, para trás...



Corro. Eles correm comigo. Rimos, abraçamos o céu, caímos sobre as flores. De repente, acreditamos ter descoberto uma pedra preciosa, recomeça a aventura... A seriedade com que somos felizes!

Da minha árvore de copa larga e densa, vejo as árvores deles e eles e todo o resto do mundo. A manhã é longa e a tarde mais ainda. Tempo infinito. Tempo que não existe. As noites são de grilos e estrelas.

Histórias e histórias... verdadeiras e de encantar... Minha história.
Canções da Beira Baixa... muitas, à lareira.
As vozes carregadas de terra, mar e canela. Eternas.

Abro as janelas de madeira verde e passarinhos vêm pousar. Bom dia! Ouço o radiozinho do meu avô. Cheiro o café e as torradas da minha avó.
A água gelada.
O coração tão quente...



Caminho das estufas... Fecho os olhos por dentro dos meus olhos fechados e respiro novamente o ar puro, virgem de vida. Eu já sabia que um dia voltaria ali - diferente, mas a mesma.

Eu já sabia que partiria.

sábado, 5 de junho de 2010

es-pranto

Fiquei. No espanto de não me espantar, de não chorar, de não saber o que sentir. Confusão.

Olhei. Espanto a inércia, choro as horas, sinto o que não sei. Toda coração.

Já vou. Estarei por aí... Esperando por mim.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

amanhecendo

O violão intocado. A chuva forte, tropical, tocando todos os instrumentos de alcatrão e cimento. Adivinho a indecisão das ondas, agora um pouco mais distantes. Rio de Janeiro. Respiro a mesma cidade que me entra pela nova janela e me encanto além-delas. Baixinho me chega a voz de Amália, imensidão de lezíria ribatejana, eternidade de rocha algarvia, mistério beirão, cheiros de Lisboa… me traz emoções misturadas de além do oceano, memórias, idades… lugares e instantes irrepetíveis e, por isso, tão dolorosos quanto felizes. Estou aqui. Não sou de nenhum lugar, sou de todos os seres que amei e amo e amarei. Que meu amor possa tudo curar!

Que meu amor possa tudo curar.


Calou-se a chuva.
E o violão, intocado.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

outros passeios



Mogoşoaia*, 2006… a chegada cinematográfica numa noite pálida de quase-inverno...

a sensação-quase-visão de um mundo que, de luzes apagadas, se prometia estranhamente-quase-fantasmagoricamente grandioso...



o amanhecer gelado e espantado, lento, à janela, depois andante, sobre as folhas coloridas dos caminhos...

o lago
a solidão
a floresta

o silêncio crepitante... o ar de uma pureza tão fria, quase-brisa... o crer allegro de estar por entre fadas e gnomos.

Os obstáculos felizes do desconhecido – das paredes, das pessoas, das horas.

Os cheiros novos... os sons longínquos da misteriosa música cigana ou do comboio sôfrego que passava... as copas das árvores misturando o outono e o inverno, nas suas cores quentes cobertas de neve, entrecortadas, aqui e ali, pelos fios quase-frios do sol, que eu procurava com o rosto, na ilusão de me aquecer... passeios encantados...




... do vivacissimo encanto recorrente, no passado e no presente, em outras paisagens-voragens-do-tempo...

* Mogoşoaia fica perto de Bucareste, na Roménia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

outono

passeio outonado no calçadão de copacabana... mar belo, de um verde escuro temperado de um leve vermelho, ondas fazendo escândalos nos ares, morros azuis escuros no horizonte de nuvens e nuvens e nuvens, azuis escuras de todos os tons... o frio carioca de 23º soprando no fogo dos pensamentos...