segunda-feira, 21 de agosto de 2017

bicicleta

embrenhada
na cidade assustada
me dou ao vento terno
sou lento inverno
sobre rodas vorazes
e as saudades...
e as saudades...

domingo, 6 de novembro de 2016

nublada

Rio nublado
suado
apressado
pra onde
pra quando
não responde
e amando
no desmando
se impõe assim
meio carmim
meio fado

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

silêncio

A praia de todos os dias
de repente se torna areia e mar
infinitos
para acolher o infinito do nosso
silêncio
Tudo branco e o azul dos olhos não azuis
cravado no tempo, que não existe
Olhos tristes
carregando terra e sal
tanto bem tanto mal
E as palavras são o vento,
manso,
o farol intermitente que
responde às perguntas em pensamento,
o descanso
da espuma sob o luar
da nuvem sobre os morros
morrendo de se amar
E a estrela que se acende
apenas para iluminar,
por um breve infinito dentro do infinito,
os lábios proibidos
prolongando o silêncio e o mar



segunda-feira, 23 de maio de 2016

de longe

Te vejo de longe
E fico confusa
Por te querer sem te chorar
Por te amar sem te saber
A multidão entre nós é difusa
Achei que te vi, será que te vi
Será que existe você
Será que te perdi
Fecho os olhos e caminho às cegas
Vou esbarrar em você
Assim, de olhos fechados
Vou esbarrar em você
Meus cabelos vão penetrar os teus
Sem aviso prévio sem apresentação
Minhas mãos vão tropeçar nas tuas
E pressinto que nesse instante as ruas
Se esvaziarão


segunda-feira, 2 de maio de 2016

relance

A noite espreita na portada
E o meu quarto quieto quase nada
E todo esse tudo por dentro da pele repele
Repensa repete relance de alma

Me deixo ir só mais um pouco
Pelo muito da pele luar louco
Me ilumina me ilude me iliba
O erro adormece certo e eu sonho


quarta-feira, 22 de abril de 2015

morte

Estou sangrando sangrando
meu sangue escorre de mim
pesado e escuro me curando
de pureza e entrega e assim
espero sobreviver suando
minha dor sem comando
por cada poro até o fim

(E se me virem por aí e eu parecer sorrir
experimentem ludicamente me ferir
perfurar minha pele levantar minhas unhas
que lindo! vêem? lágrimas? nenhumas!
sorrindo!)

(sorrindo!)

(sorrindo!)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

o primeiro poema de uma apaixonada

Quando, no templo que a noite em sua cama instala,
Nela me demoro
E seu corpo ondulado à meia-luz transgrido,
Não cabe em mim amá-la
E quase choro
Como se ela nunca minha tivesse sido.

Até os pólens do sol espantarem tais magias
E seus olhos acenderem sorrisos
E tanta beleza se tornar movimento...
Aí, na clareza dos dias,
Quase esqueço dos luares imprecisos
E todos os tempos cabem num só momento.

sábado, 23 de agosto de 2014

mística

A mística fruta
que te perfuma
anda por aqui me convocando
Quente e absoluta
no meu corpo ruiva bruma
em pólens me escapando
Será que me escuta
tua pele sol? Ou não há pele nenhuma
e afinal estou a mando
(de um desvario só)
?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

enquanto desconfias

Daqui de minha torre
Fito as águas entregues à luz da lua
E busco com força prender as águas de meus olhos
No mesmo luar.
Porém, meu amor não morre…
Insiste, rasga, sua
Por tantos poros
Que eu nem sei cantar.

Primeira cor, primeiro tom.
De repente parece que nunca havia visto…
Nunca assim arrebatada
De repente, assim parece…
Que nunca da pele um som
Tão perfeito. No íntimo sol de ti existo
Mais do que nunca – mas não tenho estrada.
E enquanto desconfias, apenas, e de novo, amanhece.


sábado, 22 de março de 2014

ou

ou eu estou viva
ou eu ganho a vida
ou eu sou livre - à deriva
ou eu estou digna - perdida
ou eu me conecto - me agito
ou eu cumpro - me alivio
ou eu durmo
ou eu grito
ou eu outono
ou eu estio
ou eu me banho
ou eu chovo
ou eu como
ou eu morro. 

(às vezes, tudo simplesmente não cabe)
(no entretanto-limite, vou esquecendo de morrer)

domingo, 21 de julho de 2013

en-luarada


Estava eu caminhando e cantando e seguindo a canção (efetivamente, a melodia de Geraldo Vandré soava ao longe, entoada por uma guitarra inspirada algures por aí), quando, do cimo da montanha, subitamente levanto o rosto e dou de caras com a lua cheia mais tremenda que eu já vi. O pessoal continuou caminhando e nem reparou. Eu parei pra ficar olhando. O pessoal meio que estranhou. E eu meio que estranhei o pessoal. A lua estava maior do que nunca (parecia daqueles filmes em que fazem efeito especial pra ela ficar enorme), estava mais branca e, por isso, mais nítida, mais nua, mais exposta. Deu-me a impressão de lhe estar vendo segredos nunca antes vistos. Será que só eu que testemunhei o breve delírio da lua?

Aproveitei, está claro, para lhe pedir um monte de coisa. A gente, humano, é assim: não pode ver um espetáculo no céu que sai logo pedindo, rezando! O mistério que nos perturba é também, afinal, o que nos salva.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

mais feliz quem sabe

eu chegava no lugar que chamo de meu, vinda do mistério de quem sou. no rádio, a voz quente de Bethânia entoou "ando devagar por que já tive pressa..." no mesmo instante em que uma bola incandescente despontou lá no fim do mar, que é o começo de tudo, e subindo, subindo, tão devagar, era bela e de verdade...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ataque de nervos

Estou à beira de um ataque de nervos
a ponto de me arrancar os dedos
e retorcer o tempo no meu peito
pintando de nada o vazio sem jeito

Estou a ponto de quebrar estrelas
com dilacerados lances de pedras
Mas os rios...

Os rios continuam correndo
na sua irritante calmaria lenta
A chuva vai, soberana, chovendo
E o sol só quando quer esquenta

Nada é quando, tudo é como
Muito é quanto e pouco é onde
Mas e eu...

Eu que espere, me esmere, supere
me sacrifique e me explique
pra mastigar depois da fúria
o mesmo vazio que me cura.

Eu só procuro, a céu aberto,
o lado de lá do esqueleto...


sábado, 2 de fevereiro de 2013

que se dane


memórias saudades amores desamados sonhos glórias glamours cidades fados rancheras sambas olhares solidões prisões perdões rasgados lágrimas mares medo que se dane eu danço com ele e erro por aí até. porque lá fora do passado e do futuro faz presente e só aí há cores cores cores.

domingo, 18 de novembro de 2012

leblon novembro dois mil e doze

Estava, ali, no banquinho, olhando o mar amanhecido acariciando a rocha e a areia quase deserta, quando vi um bando passar sob a aquarela de nuvens, formando um desenho em perfeita geometria.

Achei lindo, claro.

Só que, um minuto depois, passou apenas um pássaro.

Um só. E então pensei:

... o verdadeiramente lindo é esse pássaro solto na sua solidão de mar e céu, alternando entre o vôo e o plano, gozando, roçando as águas e os raios de sol, pra lá e pra cá, pra onde quiser, se surpreendendo nas direções, nos rumos, único, imenso, forte, inteiro e entregue à sua natureza. 


O sol então despontou por entre as nuvens e nasceu este domingo vibrante.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

teatro!

Eu acredito intensamente nesse ser apaixonado que vai nascendo das próprias dores, as que já eram suas e as que chamou a si, esse ser que pode ser tudo e todos e que, ainda assim, ou por isso mesmo, carrega toda a suavidade e toda a beleza do universo. Um tocador do divino. 

Acredito no Ator que mergulha num buraco negro, aí se banha e morre de prazer abstrato e que, depois, precisa voltar à superfície - do tempo, do espaço e das formas - e, numa entrega descarnada e segura, transforma a viagem em prazer concreto, para finalmente (fazer) viver. Para, enfim, servir – mundos, histórias, almas – aos outros. Para fazê-los, mais do que imaginarem, mais do que sentirem, se transportarem junto com ele para aquele lugar que ele desenhou e atingirem, ali, um pouco da mesma felicidade humana – mesmo que na tristeza, mesmo que na fragilidade, mesmo que na podridão. E, então, o preconceito foi banido. O absoluto foi vislumbrado. O homem se faz humano.


sábado, 19 de novembro de 2011

buraco negro

Sozinha, com a minha dor, invisível, anônima, calada pelos barulhos das ruas, das horas caindo pelas paredes, acusada disto, daquilo, tudo mentira, tudo sujo, opaco, nebuloso, confuso, estranho, a morte que chega fingindo que não, me prendendo com linhas de arame à ilusão da vida, para quê?, e o silêncio que persiste na essência de tanto barulho, e todas as coisas acreditadas em vão, para nada, e minha pele gasta por tantas lágrimas, minha pele que já era, meu corpo não visto que, agora, reconheço, já nem merece ser visto, e minha alma cadê ela, coitada, ela ouve os risos mas não consegue mais ver quem é que a pisa de tão curvada que está... sozinha, o coração ao vento... acendam a luz por favor! ACENDAM!

domingo, 23 de outubro de 2011

ela

copacabana continua linda. mar bravio, cor de sal intenso, combina comigo. sol me acolhendo na carência das horas docemente desesperadas. eu caminho por fora, corro dentro de mim... tudo é moreno no horizonte. ela continua linda.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sublimação

Eu sou a intérprete das canções perdidas
A capa dos romances amachucados
O trilho interrompido do trem desesperado
Sublimado em perfume de uma tragédia antiga.
Eu sou o ser que ama sem ser amado
O ser último e primeiro da Terra.
De mim nascem todos os papéis penetrados por poemas
Todas as serenatas e todas as guerras e todos os lemas
Todos os exageros e todos os segredos
Todos os medos e todos os nervos
Tudo o que chora, e que demora ou é de repente
Todos os erros e acertos são meus.
E amo meu amor ausente com o mesmo desapego de Deus.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

morenitude

Moreno mar que me chamas, com sussurros de sereias, à viagem descobridora,

Como esquecer a delícia desse horizonte distante de canela e caril?

* Senza Pieta, pintura de Aaron Nagel.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

hoje não

Devolva meus passos
meu andar sozinha
os momentos escassos
em que foi minha
e todas as luas
que perdi te olhando
devolva às ruas
despovoadas de nós
- mas quando?
Só te peço que hoje não.
Hoje não.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

oásis

chegar e se inebriar
extasiada de nada
- cadê?
estilhaçou-se em pólens
a magia concreta
que de tão secreta
hoje parece sonhada
- você

quinta-feira, 7 de abril de 2011

prazer!


Eu sou o pássaro que escuta
os perfumes da madrugada
a baiana que batuca
a cigana inflamada
os ciúmes os desejos
a bruxa e a fada
eu sou os beijos todos do mundo
e da lua e de saturno…
eu sou o segundo!
o tudo ou nada
o bemol mais triste do noturno
mais o sol que arde na estrada
eu sou o caminho distante e sozinho
sem chegada
sou índia loira negra
eu não entendo a regra
nem ela me entende a mim
eu sou de onde eu vim
sou exatamente o que sinto – e eu não minto
ô gente, eu não amo para ser amada!
eu amo porque me chamo amor!
eu faço do instinto o instante
abraço a dor e vou adiante
descarnada...
sou Débora Regina Simone
eu sou a fome
de ser eu e ser a outra e todos os outros
fome que vive morre de fome
alucinada…
que depois se levanta
e como se nada fosse ter morrido!
olha doce, abre os braços e canta!
e segue, alegre, contudo, com nada
à frente dos próprios passos
pacificada.

Eu sou o dia em que eu não mais direi “eu sou”.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

eu chego já



A memória mais antiga. O aconchego mais quente. A certeza da certeza da certeza. Os olhos fechados ao sabor da canção na voz pequenina de alma tão forte. As histórias de verdade que encantam. Todas as vontades, todos os mimos, toda a aceitação. Tanto cuidado. Tanto alento. Tantos beijos, que fazem tanto bem! Tanto querer-bem. Tantas horas... e vidas...

Os jogos de cartas. O fado. As pessoas antigas. As mornas. As tradições. Os segredos.

E tudo o que há-de vir. Amo-te tanto.

domingo, 18 de julho de 2010

a meio (amar em aquarela)



eu queria
chegar
mas quando eu começo
a caminhar
tropeço
na corrente fria
de um não estar
fico sem ar
medindo meu excesso
tremendo no regresso
de não saber voltar

terça-feira, 29 de junho de 2010

cigana

eu-cigana-que-sou
não tenho chão
só tenho céu.

não tenho coração
não - não o possuo não!

ele é maior do que eu.

é o horizonte que eu abraço
com a fé toda dos braços

e assim meu caminho se vai iluminando
surpreendentemente
para-além-da-dor...

e assim sou feliz
assim de repente

amando

a mando desse algo maior.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

sete luas

lua bela em copacabana.

caminho de luar no mar tranquilo, mar que nos últimos dias andava tão agitado sem razão.

o brilho é eterno, seja de lua cheia ou meia, ou mesmo, de repente, invisível - o brilho é eterno. seja refletido na imensidão das ondas ou na imensidão da profundidade - o brilho é eterno.

e me conduz com a certeza do certo e o espanto do milagre.

as mãos atadas sem fios, no caminho da eternidade. meu peito aberto - ao horizonte. meu olhar dentro do dela.

em copacabana, a lua - ainda mais bela.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

caminho das estufas

O caminho das estufas, terra e verde, o horizonte e o peito abertos, as cores serenas, pinceladas a pastel por dentro dos olhos que vão lá para trás, para trás, para trás...



Corro. Eles correm comigo. Rimos, abraçamos o céu, caímos sobre as flores. De repente, acreditamos ter descoberto uma pedra preciosa, recomeça a aventura... A seriedade com que somos felizes!

Da minha árvore de copa larga e densa, vejo as árvores deles e eles e todo o resto do mundo. A manhã é longa e a tarde mais ainda. Tempo infinito. Tempo que não existe. As noites são de grilos e estrelas.

Histórias e histórias... verdadeiras e de encantar... Minha história.
Canções da Beira Baixa... muitas, à lareira.
As vozes carregadas de terra, mar e canela. Eternas.

Abro as janelas de madeira verde e passarinhos vêm pousar. Bom dia! Ouço o radiozinho do meu avô. Cheiro o café e as torradas da minha avó.
A água gelada.
O coração tão quente...



Caminho das estufas... Fecho os olhos por dentro dos meus olhos fechados e respiro novamente o ar puro, virgem de vida. Eu já sabia que um dia voltaria ali - diferente, mas a mesma.

Eu já sabia que partiria.

sábado, 5 de junho de 2010

es-pranto

Fiquei. No espanto de não me espantar, de não chorar, de não saber o que sentir. Confusão.

Olhei. Espanto a inércia, choro as horas, sinto o que não sei. Toda coração.

Já vou. Estarei por aí... Esperando por mim.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

amanhecendo

O violão intocado. A chuva forte, tropical, tocando todos os instrumentos de alcatrão e cimento. Adivinho a indecisão das ondas, agora um pouco mais distantes. Rio de Janeiro. Respiro a mesma cidade que me entra pela nova janela e me encanto além-delas. Baixinho me chega a voz de Amália, imensidão de lezíria ribatejana, eternidade de rocha algarvia, mistério beirão, cheiros de Lisboa… me traz emoções misturadas de além do oceano, memórias, idades… lugares e instantes irrepetíveis e, por isso, tão dolorosos quanto felizes. Estou aqui. Não sou de nenhum lugar, sou de todos os seres que amei e amo e amarei. Que meu amor possa tudo curar!

Que meu amor possa tudo curar.


Calou-se a chuva.
E o violão, intocado.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

outros passeios



Mogoşoaia*, 2006… a chegada cinematográfica numa noite pálida de quase-inverno...

a sensação-quase-visão de um mundo que, de luzes apagadas, se prometia estranhamente-quase-fantasmagoricamente grandioso...



o amanhecer gelado e espantado, lento, à janela, depois andante, sobre as folhas coloridas dos caminhos...

o lago
a solidão
a floresta

o silêncio crepitante... o ar de uma pureza tão fria, quase-brisa... o crer allegro de estar por entre fadas e gnomos.

Os obstáculos felizes do desconhecido – das paredes, das pessoas, das horas.

Os cheiros novos... os sons longínquos da misteriosa música cigana ou do comboio sôfrego que passava... as copas das árvores misturando o outono e o inverno, nas suas cores quentes cobertas de neve, entrecortadas, aqui e ali, pelos fios quase-frios do sol, que eu procurava com o rosto, na ilusão de me aquecer... passeios encantados...




... do vivacissimo encanto recorrente, no passado e no presente, em outras paisagens-voragens-do-tempo...

* Mogoşoaia fica perto de Bucareste, na Roménia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

outono

passeio outonado no calçadão de copacabana... mar belo, de um verde escuro temperado de um leve vermelho, ondas fazendo escândalos nos ares, morros azuis escuros no horizonte de nuvens e nuvens e nuvens, azuis escuras de todos os tons... o frio carioca de 23º soprando no fogo dos pensamentos...